Chafariz

“Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.” (Manoel de Barros)

Minha foto
Nome: Priscila de Freitas

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

David Alfaro Siqueiros. 1919.

.
Respiro...

Minha vida me parece

A vida de um outro.

Ela vive sem mim,

e me entardece.
.

O céu

Max Ernst. 1920

.
.
Nunca haverá céu demais

O céu afoga em seu
manto de tanto
nada.

[Jamais alcançarão
suas margens de ardor]

Ele não acaba e
nem cabe no vazio
de uns olhos.

Nenhum céu basta.

.

Sexta-feira, Outubro 17, 2008

Gofo









.

.

.

.

.

.

.

Francias Bacon 1946

.

Não quero escrever

meu gozo:

é puro sujo

anjo

de sarja.


Outro gosto talvez

me saia

à borda, aborta

os filhos feios

e finda

em

si.

.

Quarta-feira, Julho 30, 2008

Andor

Piet Mondrian. Passionflower, 1908.
.

Eu não conheço o mundo...

Minha avó esquece o
que conheceu.

[Ciência de quem já
pôde crer ser nele]

Atiro meus tijolos
num rio qualquer.
Esqueço também as
águas de minha avó.

Longe essa reza,
esses nomes ressoados.

Ressinto o olvido...

Santifico meu mundo
num andor.
.

Terça-feira, Julho 08, 2008

Intacto

Edvard Munch. By the Fireplace. 1890-94
.

De volta aos acúmulos

percebo meus dedos

também

misturados

ao pólen

do erro.


Resto de osso

em meu

parapeito.


Ante os dez dígitos

cegos pela

poeira, velha

gaveta

de entulhos...


...me curvo,

me aviso incapaz

de tocar.

Terça-feira, Janeiro 15, 2008

Tudo passa

Paul Gauguin. 1893.

.

Hoje tudo é passado

o ano muda de nome

o tempo veste-se outro...

Expatriado, o velho

se esvai e vai

embora a vapor!

Espaço de nata...

nada além

desta oca

manhã.

Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Marc Chagall. 1911-12


“Me pareces un ridículo souvenir sonriente,
cuando yo tiemblo entre la vida y la muerte.”



Seu jeito me desafora
me diz: fora!
me obriga a partir.

Em mil parafusos tontos
me verto, fincando em aperto
um fantasma de ti.

Sua surdez faz meu grito,
teu riso, meu afronto.
Me velo a tal ponto
e me perco daí.

.

Segunda-feira, Novembro 26, 2007

Nem mais um pio

Joan Miró 1929


Tenho em mim uma dor de ninho.

Argila entre os dedos,
trança alvoroçada.
Pássaro piando
no peito.

Dor de bicho,
ferro no couro...
Herança
de barro e farpa.

Soletra em canto
pra não
esquecer tua marca!

.

Domingo, Novembro 25, 2007

Lençol

Seu lenço,

resto de mim.

Rosto de pano:

botões pregados

em meus olhos.

Vai! Deixo que vá,

deixa seu lenço,

único silêncio

roto de

ti.

Quarta-feira, Setembro 26, 2007

Nenhures

Edvard Munch. Weeping Girl. 1907

.
Retorno de
lugar nenhum...

Topando em
tópicos ou-topos
ou tipos
pronomeados
de ti.

Irriga meus não sentidos,
me retifica!
Sacrifica meu inverso
em teu nome predicado...

...ubíquo nome
teu por si.
.

Segunda-feira, Maio 07, 2007

Xeque

foto: Henrique Cartaxo

.

Tudo em jogo!

Cinco paredes de arroz
e um chão em desosso.

Matar com xeque,
morrer sem coroa!

(deságuo por entre as
fibras desse calcanhar)

Tudo jogado em
contramão, tabuleiro
do impossível.

Tangível...
Só os azulejos
claros de suas costas.

Domingo, Março 04, 2007

A.C.

Pablo Picasso. Woman Seated. 1908

Enquanto existas,
enquanto meu olhar
te busque detrás das portas,
detrás das coisas.
.
Enquanto nada me encha o peito
senão a tua imagem, e haja
a remota possibilidade
de que estejas em algum lugar,
sob uma luz qualquer...

Enquanto eu pressinta que és
e que te chamas
assim, com esse nome teu
de força,
e sejas também chuva
a me encharcar.

Seguirei assim, como venho sendo,
como serei agora e sempre:
silenciosamente afogada em teus cílios,
sob esse amor
que explode e não estilhaça.
.

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

Projeto Poesia na Boca da Noite 2007


O projeto Poesia na Boca da Noite chega ao quarto ano com bastante fôlego. Para a estréia, no dia 6 de março (terça-feira), às 20 horas, no Restaurante Grande Sertão, foram convidados os poetas Damário Dacruz e Priscila Fernandes.

O evento é mensal, sempre numa terça-feira, e tem como principal objetivo criar um espaço em que os expoentes da nova geração poética da Bahia – da capital e do interior – possam declamar seus poemas, falar sobre seus processos de criação e, também, interagir com o público presente. Em 2007, o evento vai contar com a participação de 19 poetas, sendo dois deles de outros estados: Carlos Gildemar Pontes, do Ceará; e Linaldo Guedes, da Paraíba.

Até 2006 o projeto priorizava autores com livros publicados. Agora, abre espaço para os poetas que desfilam seus versos nos blogs, na internet. Martha Galrão (http://mariamuadie.blogspot.com), Héber Sales (http://hebersales.blogspot.com), Priscila Fernandes (http://pffernandes.blogspot.com) e Grazziela Barreto (http://grazzibarretto.blogspot.com) são alguns dos nomes que estão na programação do projeto e que se utilizam do espaço virtual para mostrar suas produções.

Damário Dacruz é poeta e jornalista. Nasceu em Salvador, é graduado em Jornalismo e pós-graduado em Comunicação. Percorreu mais de 20 países, expondo, fotografando e escrevendo. Criador do Pouso da Palavra, espaço de arte e cultura na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano. Publicou três livros de poesia, dentre eles O Segredo das Pipas (2003), e cerca de 30 posters-poemas com mais de 100.000 exemplares vendidos. É autor do famoso poema Todo Risco e um dos nomes representativos da geração de poetas da Bahia dos anos 70/80.

Priscila Fernandes nasceu em Salvador e tem 21 anos. Logo cedo descobriu, na estante de sua mãe, alguns livros de Cecília Meireles, e desde então se vê de mãos dadas com a poesia. Hoje, estudante de Letras na UFBA e de psicologia na FRB, Priscila mantém um blog onde publica seus poemas periodicamente: Chafariz ( http://pffernandes.blogspot.com).

Poesia na Boca da Noite conta com a coordenação do poeta e jornalista José Inácio Vieira de Melo, co-editor da revista "Iararana", autor do livro "A Terceira Romaria" e organizador da coletânea "Concerto lírico a quinze vozes".

Sobre a relevância do projeto, Ruy Espinheira Filho, um dos mais importantes poetas do Brasil, afirmou, em artigo publicado no A Tarde Cultural, que "é preciso aplaudir os poetas que dele participam. E, em especial, louvar José Inácio Vieira de Melo, assim como o José Ronaldo, proprietário do restaurante Grande Sertão, pois estão realizando um trabalho notável de divulgação – e também estímulo, é claro – de nossa poesia. Trabalho importante hoje – e que por certo será uma referência na história da poesia baiana".

O restaurante Grande Sertão, palco das noitadas de poesia, fica na Rua Adelaide Fernandes Costa, 122, no Bairro Costa Azul (Em frente à Cantine Cortile). O ingresso para o evento custa R$ 5,00. Fone: 3271 1119.

PROGRAMAÇÃO DO PROJETO POESIA NA BOCA DA NOITE 2007

06 / 03 / 2007 – Damário Dacruz (Cachoeira) e Priscila Fernandes

10 / 04 / 2007 – Héber Sales e "Bicho-Homem" (Recital com Edmar Vieira (Maracás) e José Inácio Vieira de Melo)

08 / 05 / 2007 – Carlos Gildemar Pontes (CE) e Grazziela Barreto

03 / 07 / 2007 – Antonio Carlos de Oliveira Barreto e Genny Xavier (Itabuna)

07 / 08 / 2007 – Odelita Figueiredo e Silvério Duque (Feira de Santana)

04 / 09 / 2007 – Linaldo Guedes (PB) e Márcia Tude

02 / 10 / 2007 – Martha Galrão e Wesley Correia (Cruz das Almas)

06 / 11 / 2007 – RETROSPECTIVA – Goulart Gomes, Kátia Borges, João de Moraes Filho (Cachoeira) e Rita Santana

SERVIÇO:

O QUE: Projeto Poesia na Boca da Noite

ONDE: Restaurante Grande Sertão

QUANDO: 6 de março de 2007 (terça-feira)

HORÁRIO: 20 horas

VALOR: R$ 5,00


MAIORES INFORMAÇÕES:

José Inácio Vieira de Melo: (73) 8118 9442 / 3526 1936 – jivm.inacio@ig.com.br

Damário Dacruz: (71) 9192 9540 e (75) 3425 1604 – damariodacruz@globo.com

Priscila Fernandes: (71) 3336-4312 / 99716641 – priscilaff@gmail.com

Sexta-feira, Janeiro 26, 2007

Gustav Klimt. The Longing for Happiness Finds Repose in Poetry. 1902
.
Curto que nem gota em queda:
fôrma exata
de arredores.

Na impermanência do ar
chuva fina de promessas...
Palavra sem raiz
a cortar peles de ontem!


Todo olho é buraco.
Caco liquido,
cadente.
Baixo sete palmos de terra:
meu estômago farpado...

...e o dedo ainda pinga o pacto

Sábado, Janeiro 06, 2007

Amarela

Joan Miró. The Girl. 1924.
.
Decoro os nomes
que te enfeitam.
.
[Me recrio a dedo seu]
.
Pinceladas no teto,
amuleto de cor
amar ela.
.
Decoro a textura
do seu traço.
.
Longe, meu oco é tinta...
.
Retorço que nem pano
de tela,
de tê-la,
pintada em mim.
.

Segunda-feira, Novembro 20, 2006

Hai-cortes III


“Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.”
(Manoel de Barros)

.

I.
Desabotoam-se três botões:
- Flores?


II.
Para um só começo
dois fins:
meia-volta.


III.
Têmporas palpitam:
tambores?


IV.
Menti rosa
a palavra.


V.
Ver é cercar.
Haverá outra forma
de ver?


VI.
Nome nunca
é só água.
-
É antes um chafariz.


Domingo, Outubro 29, 2006

Discurso

Frida Kahlo. Girl with Death Mask. 1938
.
Bem que eu quis
desarrumar o termo,
profetizar ao cerne
instâncias de alhures.
.
Resultar irredutível
o palavreado
monocórdio
de disritmias.

Germe da forma!
.
Moer o duro é sempre
doer sem verbo.

Chegado ao tema
[três dedos amputados]
a palavra diz:
solve!
.

Terça-feira, Outubro 03, 2006

Disfarce

Francisco de Goya. Disperate Desordenado. 1815-1824
.
Abrir o óbvio
já não sustenta
a dobradiça

Escamoteia o que fica
antes dos lábios
(tumulto de semitons)

Ver a cidade dizimada
sucumbindo
sob panos e mais caras.

Poder anônimo,
dez faces
sobre mim.
.

Terça-feira, Setembro 05, 2006

Confissão

Francis Picabia. Les seins.1924-27

. Me penduro nessa parede
como um relato,
eu me refrato
e traio as mentiras.
.
As coisas que não podem ser ditas
- esculpidas na parede -
Decifram a escritura do mito
desmentem o enigma de gesso.
.
No avesso:
sou real em despedaços...
.

Terça-feira, Agosto 08, 2006

Max Ernst. Fruit of a Long Experience. 1919
.
Gravidade cor de chumbo
a pesar-me o céu da boca.
Enraízo ao dente um nome
que incha e desengonça.
Grávido de língua, o palato inflama,
umedece o dito num edema afônico.
Cuspo seco e a palavra murcha,
'desidrata o significado
até deixar umas letras'.
.

Domingo, Julho 30, 2006

.
Cai
tudo que
era torre
barranco
abaixo
só terra
ao chão.

.

Quarta-feira, Julho 26, 2006

Salvador Dalí. Cenicitas. 1927-28
.
De ti só repartes o que já é metade,
o que está em órbita,
disposto ao eixo.
.De ti só espero um quarto
do teu todo
um naco do teu meio,
um cisco
do teu seio.
.

Segunda-feira, Julho 17, 2006

Férias

Kandinsky, Wassily. Gnomus. 1928
.
Me afogo nas margens de casa.
Sapato beirando rodapé,
descondenso ao andar.
.
Ajustada a espalda
no umbral da porta,
aguardo...
.
Até me resultar
num buquê de tecido,
pote com sequilhos,
pires e veneno.
.
Traça sexagenária repousando sua viuvez.
.

Segunda-feira, Julho 10, 2006

Inédita Dissonância

.
.
Estou agora também no Algaravária, sempre às quintas-feiras. Visitem!
.
.
.

Sábado, Julho 01, 2006

Renoir, Pierre Auguste . Roses and Jasmin in a Delft Vase. 1880-81
.
Quisera ter guardado comigo
- segura -
a ultima flor da primavera passada.
E se ainda menos
fosse-me permitido,
a semente, talvez, bastaria.

Soube, por vozes frágeis,
que já não estarão as flores
na próxima estação colorida.
Antes houvesse roubado
uma única

[para que eu e o sol
continuássemos a ter motivo]

Quarta-feira, Junho 21, 2006

.
.
E noto:
a simplicidade
não está
em coisas
simples
em objetos
miúdos
em fabulosos
destinos
de amelies-poulain.
.
.

Sexta-feira, Junho 16, 2006

Amo(r)finado

ESCHER, Cornelis. Sky and water. 1938.
.
a C.O.


Dei o nome de Morfeu
a este céu de sódio.
Céu vazio dentre
palmas de persiana.
Uma poça de céu
e umas aves circulares.
Tonelada de mármore polido:
carrego o peso, deitada,
e o céu me avança.
Tento um risco
na superfície enrugada.
Obtuso céu de rigor
e brancura.
Peço que me obture
e me devassa,
como ao ópio sua substância.
Morfeu, deus do sono,
céu de gesso e magnésia.
Ampola de fosco vidro com morfina.
[Me vergo a esse leito de agulhas]
Dormência cervical e escópica
desse olhar horizontal
e amofinado.
.

Segunda-feira, Junho 12, 2006

des-a-florar

KANDINSKY, Wassily. Several Circles. 1926
.
Três medidas cheias
de pó Melita para
meio litro de água
borbulhante.
.
Colcha cor de açucar
a seduzir-me da cama.

Prazo, atraso, atestado
[Associação Brasileira de Normas Técnicas]
.
E essa droga de poesia
que me reclama!
.

Sábado, Junho 10, 2006

Lição de casa

.
.
.

.
.
.

Terça-feira, Junho 06, 2006

POLLOCK, Jackson. The She-Wolf. 1943
.
Nada que se perceba assim
como um desvelo
.
(lógica de destemperanças)

Nada de tão simples desterro,
improfícuo despacho
ou improvável mau zelo.

Nada, que destrambelha
e faz nome. Vocábulo
perene, impregnado.
Perrengue rasteja
e suja a roupa do nome.

Mazela do corpo
inscrita na casca (de vez)
da alma. Piripaque profético,
patético, escancarado.
Ziquizira capenga,
escafandrista do avesso.

Dói a carne do osso:
no esboço do medo
que transborda
-em fardo-

E não se fala de corda
em casa de enforcado.

Sexta-feira, Junho 02, 2006

MATISSE, Henri. Satyr and Nymph. 1909
.
Meu cansaço é estar debruçada
sobre o frenesi do seu dito.
Descompostura que me diz sua
no espaço possível desse manifesto.

Meu cansaço é estar debulhada,
retalhada e imóvel pelos punhos
na parede do seu busto
- golpe seco de brita.

Meu cansaço é estar disposta
e muda...
descarnada de franqueza
nessa cartilha antropofágica.

Meu cansaço é ouvir
a voz do seu estomago
e me afundar num sono
de mil e uma quarentenas.
.

Segunda-feira, Maio 29, 2006

MALEVICH, Kazimir. Two Figures. 1928-1932
.
Como
quando
a tinta
da janela
descasca
permeia
mofa
afofa
amolece
pendura
e voa:

é provisório
precário
perecível
.
...e amargo
.

Sábado, Maio 20, 2006

Nomedoeu

KLEE, Paul. Puppet Theater. 1923
.
I.

Esculpir cantos do próprio corpo
como quem nomeia
a si próprio
um desapropriado
de nome.

II.

Falecido enfeite póstumo:
sobrenome de família.

III.


Repito o som do apelido
repito o apelido
repito, repito
apelido
o som.

IV.

No gesto do nome
o ato urdia.
.

Segunda-feira, Maio 08, 2006

Hai-cortes

MAGRITTE, René. Hegel's Holiday. 1958.
.
I.

Eterno
só o que vibra
Todo o resto é curto
como cílios de boneca.

II.

Crescente num espaço
sem tropeços
a vida
desaba.

III.

Para dormir hoje
melhor contar ácaros
que carneirinhos.

IV.


Nem se quer a morte
- por sua parte imensa -
escapa ao erro

V.

Isento e livre
(como névoa amanhecida)
esse amor, já sem mim,
amará para sempre.
.

Sexta-feira, Maio 05, 2006

DALI, Salvador. 1938
.
É a surdez do sentido,
a nudez do emblema,
a brancura do signo,
a voz casta do nome.
.
Polpa volatilizada
em espaços de vácuo.
Nacos de vento
em suco gástrico.
Farpa de armário
na fogueira.
.
Crueza bruta de ser
.

Terça-feira, Maio 02, 2006

Vôo

MAGRITTE, René. La Modèle rouge. 1935
.
Oito horas de aeroporto
e um gosto de menta
saturando a saliva.

Sabe a nylon,
vidro com detergente,
parafuso oxidado,
tragédia.

Embaixo da meia
o desejo de fugir,
mergulhar em nitrogênio liquido
e usar o acento
para flutuar.
.

Segunda-feira, Abril 24, 2006

MALEVICH, Kazimir. Unemployed Girl. 1904
.
Deleitar-se é estar-se só
e a solidão é uma ausência de vazios:
matéria ôca do corpo,
significante pesando aos membros.
.
No consumo da palavra
compro minha imagem por centavos
e recrio sorrisos.
.
Existir é desacompanhar-se.
.

Terça-feira, Abril 18, 2006

PICASSO, Pablo. The Rape of the Sabine Women. 1962-63.


Armaram as catapultas:
Mulheres berram como ovelhas
gritam como putas
choram
água cor de alho.
Armaram as catapultas:
Homens correm com pernas fortes
esbarram-se, escorregam,
tropeçam no assoalho.
Armaram as catapultas:
Crianças continuam brincando,
em seus cantos, sentadas
como os loucos que continuam brincando
em seus cantos, sentados.
Armaram as catapultas
fanfarrões agarram-se
aos últimos goles de licor.
Amantes se apertam
em gemido derradeiro.
Fiéis em reza compulsiva
imploram lugar no céu.
Quando uma voz de longe grita:
"A guilhotina venceu a concorrência!"
E todas as catapultas são desarmadas...

Sexta-feira, Abril 14, 2006

ERNST, Max. The Garden of France. 1962

Esvaziar pelo transborde.

Calar...
...aquietar
os calos da garganta

[Arainhas desmembrando-se no estomago]

Espreguiçar-se,
esparramar-se
sobre os tacos
do chão.

Deter-se,
desvelar-se
sem que ninguém
tome conhecimento.

Domingo, Abril 09, 2006

PICASSO, Pablo .Young Tormented Girl. 1939.

Como esperar versos deste furo,
se o que me inspira
é o que me incha os olhos?

Renego esse corpo de frangalhos,
essa casa de poeira,
esse mundo
de migalhas.

Fujo-me de espaços,
esburaco-me.

Cavo detumescências
com dormência de pedra
nas mãos.

Quinta-feira, Abril 06, 2006

MAGRITTE, René . The Lovers. 1928
O inverno aqui chega
como a febre
que muito pinga.

Esconde, pois, tua beleza
dessa umidade.
Cobre os membros
com trapos foscos.

Guarda-te do meio dia,
das horas todas.
Protege-te, defende-te.

Cobre tua beleza...
com sono,
com tecidos gordos,
com esteiras de aço.

Para que eu, só,
te descubra,
te desnude,
te desvele.

Terça-feira, Abril 04, 2006

Infância

ERNST, Max. L'Ange du foyer ou Le Triomphe du surréalisme. 1937

Enterro de passarinho:

Crucifixo de palito,
dedos sujos de terra escura
e um sopro de fantasmas no cangote.

Quarta-feira, Março 29, 2006

KLEE, Paul . A Young Lady's Adventure. 1921. Watercolor.

Vida embalsamada
em solução de naftalina:

tempo lesionando juntas

Saúva de joelhos
corroendo vértebras:

formiga nas entranhas

Contração do ser
em intervalos nulos:

aborto lírico do Eu

Quinta-feira, Março 23, 2006

DAUMIER, Honoré. The Insurrection. 1852-58
.
Estou cansada da juventude
e seus rocks revoltosos:
[jovens que bebem vinhos baratos em manifestações]
Todos tão juntos, gritando,
com seus cigarros!

Trezentos amigos íntimos.
Sexo instantâneo, em pó e solúvel.
Gestos em ebulição.

Suas fragilidades...

...suas fragilidades
e seus chicletes no canto da boca.

(Nasci com 80 anos,
e hoje morro, com 82).

Terça-feira, Março 21, 2006

(cena do filme "Psicose" de Alfred Hitchcock)
.
Não espero por ninguém.
Vou sozinha ao cinema.

Odeio discutir o filme depois.

Segunda-feira, Março 13, 2006

Errata

MARTINELLI, Girolamo. Detail of a bass violin, 1671
.
Quatro pernas
para meu cansaço.
Três garfadas
de tragédia
e um acordo
interesseiro com Deus.

Ravel e Debussy
trilhando acidentes
no terreno.
Pano de linho teso
sob meus passos de violino.

Caminho pautas erradas
mas ouço
o absoluto.

Sexta-feira, Março 10, 2006

DALI, Salvador. Lighted Giraffes. 1936-37
.
I.

Qual a palavra da fala,
qual a do pensamento?

Como o som frouxo
de um flautim
se espalhando
num salão
acústico:
me perco
no
sentido
das coisas.

II.

Lá fora,
(no mundo)
a tarde morre
rutilante,
e faz ecos
de luz.

A tarde faz ecos
em mim...
em meu mais
oco âmago,
no meu mais
seco íntimo.

III.

Olho para as duas mãos,
olho para os sapatos,
e para os botões,
coço o pescoço,
torço os dedos,
molho os lábios,
engulo seco,
estalo,
pisco,
dôo,

e não encontro palavra alguma.

Quarta-feira, Março 08, 2006

Asma


É como andar labirintos
prendendo o fôlego.
Desviar de barulhos
com os olhos.

Cansei dessa vida asmática.
Quero cânfora,
eucalipto,
sálvia e gengibre.

O tempo que adoeça sem mim!

Domingo, Março 05, 2006

Solilóquio



O meu quarto é feito de dormências,
de esquinas híbridas
e viúvas.

No mural, 13 fotos e 1 cartão
perfeitamente perfurados
a esse quadro de certezas marrons.

Hoje amanheceu domingo
e eu não penso em chocolate
...
[tenho saudades da minha irmã]

Sábado, Março 04, 2006

Verão

MIRÓ, Joan. Dutch Intérior. 1928
.
Nesta cidade o verão dói,
racha o hermético
dos poros.

Cão ofegante
pingando suores da língua
(respira perto dos meus pés)

Eu,
derretida na sala,
dissolvo-me em nada.